Vamos falar sobre continuidade na educação?

“Daqui a duzentos ou trezentos anos, ou mesmo mil anos – não se trata de exatidão – haverá uma vida nova. Nova e feliz. Não tomaremos parte nessa vida, é verdade… mas é para ela que trabalhamos e, se bem que a soframos, nós a criamos. E nisso está o objetivo de nossa existência aqui”, escreveu, em 1901, Anton Tchekhov, dramaturgo russo.

Frase muito adequada a quem se dedica a impactar a melhoria da qualidade educacional em uma cidade, estado ou país. Muitas vezes, o tempo para o efeito das ações pode ser usado como desculpa, mas se analisarmos de forma imparcial é possível compreender o porquê das transformações não ocorrerem tão rapidamente.

Certa vez, tive a oportunidade de fazer uma pergunta para o professor António Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa – que, pelo seu excelente trabalho, chegou a ser candidato a presidente de Portugal. “Como obter resultados mais rápidos na educação?”, perguntei. A resposta foi categórica: “Não acredito em grandes reformas. Acredito que os gestores públicos precisam desenvolver o sistema colocando os incentivos no lugar certo”. Aquela resposta marcou e caiu como um insight perfeito, algo que já sentia, mas que ainda não estava esclarecido na minha mente.

Ter a compreensão da natureza de um sistema complexo influenciado por tantas questões sociais, econômicas e políticas é fundamental para o gestor ter a noção da importância das ações estruturantes, com continuidade das políticas e foco no longo prazo.

Isso não exime das emergências, nem de agir com o senso da urgência – na verdade, reforça na medida em que o compromisso com o futuro depende da velocidade da intervenção produzida no presente. Quanto mais cedo se muda e quanto mais contínua e mais consolidada a intervenção, mais forte é o efeito futuro.

Se quisermos melhorar a qualidade da formação inicial dos professores, precisamos desde já iniciar o diálogo e construir um novo modelo para as graduações. Depois de implantado, teremos que aguardar 5 anos para que novos professores sejam formados. Haverá uma curva de aprendizado no processo e não serão as primeiras turmas que já sairão com uma nova formação.

Se quisermos melhorar um currículo (como foi feito com a nova Base Nacional Comum Curricular), temos que ouvir a sociedade e os grupos de interesse para depois multiplicar isso para as redes – que, por sua vez, terão um prazo para se adaptar (por lei, 2 anos).

Depois que as redes se adaptarem, uma criança que entrar no berçário levará 5 anos para concluir a Educação Infantil, 10 anos para alcançar o 5º ano dos anos iniciais do Ensino Fundamental, 14 anos para alcançar o 9º ano dessa mesma etapa (e só então concluí-la) e seguir para mais 3 anos de estudo no Ensino Médio.

A educação básica é um caminho de 17 anos

Claro que os estudantes que já estiverem no meio desta caminhada também serão impactados pela melhoria do currículo, mas muito provavelmente menos do que os que tiverem a chance de ter mais anos com o novo formato. E ainda teremos a “curva de aprendizado”.

Somado a estes fatores, ainda temos, na gestão pública, as trocas de lideranças. A troca de prefeitos, de secretários e de suas equipes é algo comum. Mesmo com processos de transição aperfeiçoados, sem dúvida alguma há perdas.

Há mudanças saudáveis que renovam, que tiram equipes de zonas de conforto, mas, por mais que o novo seja bom, haverá um custo de transição – e, de novo, uma “curva de aprendizagem”.

Por isso defendo a continuidade, como aconteceu no Ministério da Educação (MEC) em períodos anteriores, quando dois ministros passaram quase 8 anos no cargo. Outro exemplo que posso citar é o que ocorreu em estados, cidades e capitais que também apresentaram resultados consistentes, como a história de Sobral, no Ceará, que há 18 anos tem o mesmo grupo à frente da educação e conseguiu se tornar a melhor rede pública do país nos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental.

Não precisamos de 200 ou 300 anos para perceber se conseguimos transformar a educação. Precisamos trabalhar com extremo afinco hoje, semeando boas políticas e fortalecendo a base dos processos.

Com constância de propósito, saberemos que nem tudo será colhido em uma gestão ou pelo grupo que plantou, mas sim pelos próximos (por nossos netos, por nossos bisnetos e pelos futuros cidadãos de quem cuidamos desde já), pois para estarmos onde estamos outros fizeram por nós.


Os artigos publicados com assinatura neste blog não traduzem a opinião do QEdu. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate da educação e de temas relacionados e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

Rogério Morais
Diretor Executivo de Gestão Pedagógica da Secretaria de Educação do Recife desde 2013; Conselheiro Municipal de Educação; Professor da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP), da Universidade de Pernambuco (UPE); e Especialista em Gestão do Processo Educacional.

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