Até a sala de aula

É verdade que os resultados educacionais do Brasil ainda são insatisfatórios, mas também é verdade que o foco nas melhorias do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) já dita a tônica da atuação da maior parte das Secretarias e unidades escolares, em busca do atendimento ou superação das metas estabelecidas pelo Ministério da Educação (MEC). E quanto maior o tamanho da rede, maior a complexidade do sistema e, portanto, maior a necessidade de assertividade das intervenções.

Secretarias (órgão central), escolas e salas de aula devem atuar em conjunto, afinadas em função do aprendizado do estudante. Quanto mais cada nível se distancia um dos outros, maior a probabilidade de desalinhamento e maior também a chance de boas políticas tornarem-se apenas bons discursos (porém ineficazes) e produzam pouco ou nenhum efeito na ponta, na sala de aula.

Por exemplo: Um bom currículo (tecnicamente bem elaborado, construído com a participação coletiva de alguns representantes da classe docente, distribuído fisicamente em todas as unidades escolares, com as matrizes disponíveis para consulta e registro no diário de classe), se não for aplicado coerentemente nas aulas pela maior parte dos professores, pode ser apenas um documento bem escrito (e nada mais do que isso) e gerar pouco ou nenhum aprendizado para os estudantes.

O grande desafio está em compreender a necessidade de funcionamento de uma rede educacional enquanto sistema, um conjunto de partes interdependentes, com processos contínuos de retroalimentação e amadurecimento – aprendizagem organizacional (Senge 1990), que garanta desdobramento das políticas públicas desenhadas no nível da Secretaria até a prática do professor em sala de aula e, por sua vez, até a aprendizagem do estudante.

Todo gestor público precisa ter esta compreensão desde o momento inicial de planejamento, projetando suas ações de maneira que a chance de sucesso seja potencializada em prol dos objetivos finalísticos, até a implementação. Nenhuma boa política pode ser assim considerada, sem que se garanta seu funcionamento na sala de aula; senão não é uma boa política, fica no meio do caminho, fracassa.

Estudo realizado pela Fundação Lemann (Excelência com Equidade), em 215 redes que obtiveram excelentes resultados no Ideb entre 2005 e 2015, encontrou similitudes entre as redes de maior sucesso, e a característica mais presente em todas foi a maturidade de suas políticas bem desenvolvidas no nível central, mas também bem apropriadas pelas gestões escolares e, principalmente, corpo docente.

Não se trata de uma tarefa fácil, nem rápida. Como disse inicialmente, quanto maior o sistema, maior a complexidade; portanto, maior o esforço.

O grande diferencial é ter consistência de propósitos, estabelecidos em políticas públicas de estado amadurecidas, e visão estratégica de longo prazo, para com a paciência processual inerente à evolução organizacional, gerir o sistema com um norte alinhado no consciente do coletivo.

Rogério Morais
Diretor Executivo de Gestão Pedagógica da Secretaria de Educação do Recife desde 2013; Conselheiro Municipal de Educação; Professor da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP), da Universidade de Pernambuco (UPE); e Especialista em Gestão do Processo Educacional.

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