Precisamos falar mais sobre Formação Continuada

O estudo “Formação Continuada de Professores: contribuições da literatura baseada em evidências” (2017), feito por uma equipe de pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas, a pedido do Movimento Todos pela Educação para o Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), fez um levantamento de produções científicas nacionais nas principais bases de pesquisa e não encontrou estudo brasileiro que abordasse a eficácia de um processo formativo docente no país. Teve, então, que utilizar estudos internacionais para desenvolver uma análise e entregar um documento com os principais achados.

Se em uma escola o fator mais impactante na aprendizagem do estudante é o professor e sua prática (Hanushek e Rivkin, 2010), a ausência de referências sobre a temática da formação continuada no Brasil parece um sintoma de que algo está desalinhado.

Pode ser que muitas redes ainda não tenham garantido de forma estável e definitiva o que preconiza a Lei nº 11.738/2008 (“Lei do Piso” (1)), onde ficou determinada a implantação “paulatina” do tempo para o professor sem interação com o estudante, para planejar, preparar materiais, corrigir provas e para formação.

Mas também pode ser que não estejamos dando a devida relevância para o processo, não compreendendo que se trata de uma estratégia fundamental para melhorarmos os baixos resultados educacionais na educação básica.

A revisão literária da Fundação Carlos Chagas deixou claro os pontos que podem influenciar positivamente a eficácia de programas de formação: (1) o foco no conhecimento pedagógico do conteúdo; (2) métodos ativos de aprendizagem; (3) participação coletiva; (4) duração prolongada e (5) coerência.

Quanto mais forte a presença destes cinco fatores, mais os professores elevam habilidades e os efeitos podem ser observados na mudança da prática de ensino e nos níveis de aprendizado dos estudantes.

Conhecimento pedagógico do conteúdo (1) consiste no domínio não só do conteúdo a ser trabalhado, mas das formas mais didáticas de ensiná-lo, ou seja, da forma mais efetiva de aprendizagem do estudante (Shulman, 1987).

Metodologias ativas (2) colocam o professor como sujeito central do processo e privilegiam a participação, o debate entre pares, a autoria, a elaboração de planos aula, em detrimento de assistir explanações meramente expositivas.

Já a participação coletiva (3) valoriza as comunidades de aprendizagem, as socializações de práticas exitosas e a solução de desafios do processo de ensino e aprendizagem de forma colaborativa.

A duração deve ser prolongada (4), ou seja, não é uma palestra que vai mudar sua prática. É transformar o processo para que se torne realmente contínuo, perene, mas que os encontros não sejam muito dispersos, sem conexão entre eles.

E, também é fundamental que as formações sejam coerentes (5), sejam parte de um todo e façam sentido, tanto sejam o instrumento de consecução de políticas mais macros, como também tenham relação com o dia a dia da sala de aula.

É claro que existem outros fatores que podem influenciar um bom processo de formação, mas além de expandir o espectro de análise, precisamos ampliar o debate técnico sobre o tema.

Alguns estudos nacionais já demonstraram o problema da formação inicial, dos currículos muito teóricos e pouco práticos de alguns cursos de Pedagogia. Mas também é necessário aprofundar o conhecimento sobre o processo de formação continuada. Saber o que e onde está dando certo potencializa a troca entre redes e cria referências.

Ter o foco na eficácia não pode ser limitado por paradigmas sobre a autonomia docente. No mundo todo, professores aprendem com a prática de pares. Isso só pode ser acompanhado observando-se a atuação em sala de aula ou o impacto final no processo, que é a aprendizagem dos estudantes.

 

(1) A Lei do Piso institui o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica.

Rogério Morais
Diretor Executivo de Gestão Pedagógica da Secretaria de Educação do Recife desde 2013; Conselheiro Municipal de Educação; Professor da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP), da Universidade de Pernambuco (UPE); e Especialista em Gestão do Processo Educacional.

Comentários

comentário(s)