Os Anos Finais nas capitais brasileiras

Segundo dados do IBGE divulgados em julho de 2018, quase 1 em cada 4 brasileiros (24%) mora em capitais, o que corresponde a mais de 49 milhões de pessoas. Assim, quando tratamos de suas redes públicas de educação, geralmente são redes grandes e complexas, pois possuem duas ou três etapas de ensino (Educação Infantil, Ensino Fundamental – Anos Iniciais e Anos Finais) e sofrem com as mazelas do contexto urbano: altos índices de violência, falta de estrutura de serviços básicos etc. Portanto, entendo como louvável o destaque às boas práticas nas capitais, visto que são construídas em um certo grau de complexidade maior que a média.

Trago uma reflexão que aflige praticamente todas as redes de ensino e também as 26 representantes deste universo: a diminuição do desempenho nos Anos Finais, etapa do Ensino Fundamental, quando ocorre a transição dos Anos Iniciais para o Ensino Médio.

17 Capitais atingiram suas metas de Ideb nos Anos Iniciais, mas apenas 6 (sendo 5 do Norte e do Nordeste) também atingiram nos Anos Finais. Em média, há uma queda de 1 ponto no índice entre uma etapa e outra (entre todas as capitais, apenas Macapá não decresce). Isso posto, duas perguntas ficam no ar: 1) Por que este fenômeno ocorre?; e 2) Já existem soluções ou avanços em curso que possam nos apontar direções?

Não há uma só causa para o fracasso dos Anos Finais. Aliás, dificilmente um problema em sistemas educacionais de larga escala é simplório e pode ser decifrado de forma tão direta. Todavia, algumas das causas parecem consenso.

É nítido, aos olhos dos que vivenciam a educação no chão da escola, que na fase da adolescência os estudantes estão com mentes e corpos em ebulição, com energia, atenção e sentimentos à flor da pele.

De acordo com Laurence Steinberg, professor de Psicologia da Universidade de Temple, nos Estados Unidos, e especialista da neurociência, a adolescência é um momento de “desequilíbrio maturacional”, mas também de bastante “plasticidade” do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, considerado a “segunda janela” de desenvolvimento cerebral – momento em que as áreas responsáveis pela autorregulação e autocontrole ainda não estão completamente formadas.

Outro fator relevante é a mudança crucial de orientação instrucional. O estudante deixa de ter um professor referência para ter 6, 7 ou 8, cada um pertencente a uma disciplina: Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, Língua Estrangeira, Artes, Geografia, História, entre outras, a depender da matriz curricular da rede.

Não à toa, o município do Rio de Janeiro, durante a gestão da Secretária Cláudia Costin, implementou iniciativa exitosa de atrasar esta transição para o 7º ano do Ensino Fundamental, mantendo o 6º ano com a mesma estrutura de professores dos Anos Iniciais.

Outros sintomas que nos levam a inferir causas relevantes são os indicadores de fluxo. De acordo com o Censo Escolar de 2017, no Brasil, nos Anos Finais, a retenção e a evasão crescem e a distorção idade-série mais que dobra – passa de 14% nos Anos Iniciais para 29% nos Anos Finais –, apresentando uma concentração maior nos primeiros anos da etapa (6º e 7º anos).

A dificuldade de adaptação leva ao desinteresse, ao abandono e à falta de motivação. A aula já não atrai mais a atenção. Já não faz mais sentido ficar horas parado, passivo, escutando os professores apresentarem conteúdos – muitas vezes não compreendidos por falta de uma base sólida –  que não possuem conexão com o dia a dia do estudante, sem um significado teórico ou prático para ele.

E quais alternativas despontam? O que parece dar resultado? Temos algumas esperanças de que esse jogo pode estar virando.

Palmas, Fortaleza e Recife são as capitais que mais ampliaram o percentual da oferta de educação integral, traduzindo uma experiência exitosa do Ensino Médio e adaptando à realidade do Fundamental. No modelo integral, o estudante é protagonista e é estimulado a sonhar com seu futuro, dando os primeiros passos no plano do seu projeto de vida.

Recife, Aracaju e Maceió também apostaram na gamificação como estratégia para estimular o engajamento dos estudantes, oferecendo clubes de robótica, cinema, rádio, jogos de raciocínio lógico e jogos eletrônicos em tablets. Os adolescentes colocam sua energia em algo lúdico, mas com forte intencionalidade, trabalhando o conteúdo tradicional inserido em outro tipo de narrativa muito mais atraente.

Acredito que o fator comum a todas as experiências seja o dinamismo e o foco no aluno. Esta parece ser parte da solução que, em conjunto com outras frentes, podem produzir os avanços esperados.

É preciso compreender que a escola de Anos Finais deve possuir outros arranjos que permitam o elo entre os Anos Iniciais e o Ensino Médio, cuidando de uma transição da natureza humana muito delicada, mas fundamental para a formação de cidadãos responsáveis e autodeterminados a seguirem se dedicando aos estudos para alcançarem seus sonhos.

É o nosso sonho também!


Os artigos publicados com assinatura neste blog não traduzem a opinião do QEdu. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate da educação e de temas relacionados e de refletir as diversas tendências do pensamentos contemporâneo.

Rogério Morais
Diretor Executivo de Gestão Pedagógica da Secretaria de Educação do Recife desde 2013; Conselheiro Municipal de Educação; Professor da Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco (FCAP), da Universidade de Pernambuco (UPE); e Especialista em Gestão do Processo Educacional.

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